Proposta de Área Marinha Protegida no Gorringe

O Compromisso de Proteger o Gigante do Atlântico

O Monte Gorringe, uma das formações subaquáticas mais impressionantes do Atlântico Norte, está no centro de um novo compromisso nacional para a conservação marinha. Localizado a cerca de 200 km a sudoeste de Portugal Continental, este monte submarino, ergue-se desde os 5.000 metros de profundidade até cerca de 30 metros da superfície, revelando-se um oásis de biodiversidade em pleno oceano. Pela sua relevância ecológica, geológica e científica, o Gorringe é hoje considerado uma das áreas de maior valor natural sob jurisdição portuguesa.

© Oceano Azul Foundation _ Jordi Chias

Um ecossistema singular nas profundezas do Atlântico

O Gorringe é a montanha mais alta da Europa ocidental e alberga comunidades marinhas únicas, adaptadas a ambientes extremos e diversos. Entre os seus habitats destacam-se florestas de grandes algas castanhas, jardins de corais e esponjas, espécies ameaçadas ou em perigo e a ausência de espécies invasoras, que fazem deste local um dos ecossistemas mais valiosos em mar aberto da Europa. Pela sua riqueza natural e função ecológica, o Gorringe foi a primeira área oceânica da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal continental a integrar a Rede Natura 2000, a rede europeia de conservação da biodiversidade.

A importância desta montanha submersa levou à organização da Expedição Oceano Azul Gorringe – a maior missão científica realizada a esta área. Liderada pela Fundação Oceano Azul, em parceria com o Oceanário de Lisboa, o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e a Marinha Portuguesa, reuniu uma equipa multidisciplinar de cientistas nacionais e internacionais numa operação de exploração e documentação da sua biodiversidade.

© Oceano Azul Foundation _ Jordi Chias

Os resultados da expedição reforçaram o reconhecimento científico do valor ecológico, geológico e científico do Gorringe e das áreas envolventes, fornecendo uma base científica robusta para a proposta de criação de uma nova Área Marinha Protegida com Proteção Total (zonas sem qualquer atividade extrativa) oceânica de larga escala. Toda a informação recolhida encontra-se sistematizada num relatório científico que sustenta esta iniciativa de conservação.

Com base neste conhecimento científico, foi proposta a criação de uma área com cerca de 100.000 km² com Proteção Total, abrangendo mar profundo e montes submarinos, uma área quatro vezes superior à atualmente classificada no âmbito da Rede Natura 2000.

© Oceano Azul Foundation _ Jordi Chias

Um compromisso nacional para a proteção do Gorringe

Durante a 3.ª Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano (UNOC3), realizada em junho de 2025 em Nice, o Governo português anunciou o compromisso de reforçar a proteção do Monte Gorringe e das áreas oceânicas adjacentes, reconhecendo o seu valor ecológico e científico excecional.

Este compromisso foi posteriormente concretizado com a publicação do Despacho n.º 12518/2025, que determina o início do processo de classificação da Reserva Natural Marinha Madeira-Tore, incluindo o Banco de Gorringe, uma área com cerca de 173.000 km² e a elaboração do projeto de decreto-lei para a criação da Reserva Natural Marinha Dom Carlos. Estes instrumentos iniciaram formalmente o processo de classificação de uma nova Área Marinha Protegida de grande escala em mar aberto, no Atlântico Nordeste. O processo em curso tem por base a evidência científica disponível — incluindo também os resultados da Expedição Oceano Azul Gorringe —, enquadrando-se, no entanto, numa abordagem própria do Governo português no que respeita à configuração da área e modelo de proteção.

No âmbito deste processo, o Governo promoveu uma consulta pública nacional, permitindo a participação de cidadãos, instituições científicas, organizações da sociedade civil e outros utilizadores do oceano na definição do futuro modelo de proteção desta região.

Neste contexto, a Fundação Oceano Azul contribuiu com base na evidência científica disponível — incluindo os resultados da Expedição Oceano Azul Gorringe e o conhecimento acumulado sobre esta região —, reforçando a necessidade de assegurar níveis de proteção adequados, incluindo áreas de proteção total, garantir coerência entre os instrumentos legais e de gestão, alinhar com standards internacionais de conservação e acautelar condições eficazes de implementação, fiscalização e financiamento.

Com esta nova designação, Portugal elevará a percentagem de oceano sob a sua jurisdição coberta por Áreas Marinhas Protegidas para cerca de 25%, reforçando a rede nacional de conservação marinha e contribuindo para o cumprimento da meta internacional de proteger 30% do oceano até 2030 (30×30).

Um processo em construção

O processo de classificação desta nova Reserva Natural Marinha representa um passo determinante para a proteção de um dos ecossistemas oceânicos mais valiosos sob jurisdição portuguesa.

Através deste processo, está a desenhar-se um novo mapa de conservação para o Atlântico mais ambicioso, eficaz e que deve estar alinhado com os compromissos internacionais de proteção do oceano.

A Fundação Oceano Azul continuará a colaborar com o Governo, a comunidade científica e os diferentes utilizadores do mar, contribuindo com conhecimento científico, mobilização e experiência internacional para que o Gorringe se torne um exemplo de conservação marinha eficaz e para que Portugal permaneça na linha da frente da proteção do oceano no século XXI.