Mineração Em Mar Profundo

Apoio a uma Pausa Cautelar Fundamentada na Evidência Científica

O mar profundo começa a poucas centenas de metros abaixo da superfície, onde a luz solar já não alcança. É um ambiente de pressões esmagadoras, temperaturas extremas e escuridão absoluta. Durante séculos permaneceu inacessível e envolto em mistério, mas ainda assim detém um profundo significado espiritual para muitas culturas.

Hoje sabemos que é o maior ecossistema do planeta – ocupa quase dois terços do nosso planeta e alberga uma diversidade de vida verdadeiramente notável. Criaturas insólitas e fascinantes prosperam neste ambiente: peixes-lanterna, delicados polvos-dumbo e corais e esponjas com milhares de anos. Muitas destas espécies não existem em mais nenhum outro lugar, moldadas por milhões de anos de evolução em condições extremas.

O que acontece no fundo do oceano reflete-se à superfície

Apesar de largamente invisível, o mar profundo é vital para toda a vida na Terra. Regula o clima ao armazenar enormes quantidades de carbono. Mantém a circulação oceânica que distribui nutrientes à escala planetária. Sustenta pescas das quais dependem inúmeras comunidades por todo o mundo e encerra um vasto potencial por explorar no desenvolvimento de novos medicamentos. O oceano profundo é, em muitos aspetos, o coração do planeta.

Água-viva-pente (ctenóforo)
ⓒ iStock

Mineração em mar profundo: uma ameaça crescente

Até ao final do século XX, esta região do oceano profundo para além das jurisdições nacionais era um verdadeiro território sem lei. Essa realidade mudou com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que consagrou o fundo marinho como património comum da humanidade e levou à criação da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) para gerir estes recursos e zelar pela proteção ambiental destes ecossistemas. Até ao momento, apenas foram concedidas licenças de exploração científica — mas a pressão para permitir o aproveitamento comercial de recursos continua a crescer, apesar de uma ampla gama de graves preocupações científicas e de equidade.

A mineração em mar profundo consiste na extração industrial de minerais como o cobalto, o níquel ou o manganês do fundo do mar. O processo começa com a fase de exploração – mapeamento e amostragem para identificar áreas ricas em recursos, e compreender os ecossistemas aí existentes. No entanto, a exploração comercial, se autorizada, colocaria grandes máquinas industriais a deslocarem-se pelo leito marinho, capazes de raspar e aspirar formações minerais que levaram milhões de anos a formar-se.
Sedimentos até agora intactos (exceto pela sedimentação natural) seriam revolvidos, formando extensas nuvens que poderiam ser transportadas por centenas de quilómetros através das correntes profundas. As águas residuais seriam igualmente devolvidas ao oceano, sufocando a vida muito para além da área de extração, e provavelmente, mais próximo da superfície. A recuperação e restauração, se possível, ocorreria apenas em escalas temporais de séculos a milhões de anos.

A mineração em mar profundo poderá perturbar ecossistemas frágeis, levar à extinção de espécies antes mesmo de serem conhecidas, ameaçar a estabilidade das cadeias alimentares marinhas, as pescas e a segurança alimentar, e comprometer a capacidade do oceano de regular o clima global.
O que acontece nas profundezas faz-se sentir em todo o planeta.

Água-viva-pente (ctenóforo)
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Num ambiente tão lento e vulnerável, agir com cautela é o único caminho possível

Em terra, a natureza por vezes regenera-se: as florestas renascem, os rios recuperam e voltam a fluir despoluídos. Mas no oceano profundo, a vida decorre a outro ritmo. As espécies crescem lentamente, reproduzem-se tardiamente e os ecossistemas dependem de equilíbrios delicados – uma vez destruídos, muitos podem nunca regressar ao estado original.
É por isso que cientistas, comunidades, países e organizações apelam a uma moratória global ou pausa cautelar para a extração de minerais do fundo do mar. Não se trata de uma proibição definitiva, mas de uma pausa – um compromisso de compreender antes de agir, e de proteger antes que os erros se tornem irreversíveis.

O mar profundo é a última grande fronteira intacta do planeta Terra e esta pode ser a nossa única oportunidade de a preservar, pelo benefício das gerações presentes e futuras.

#DefendTheDeep