Expedição Oceano Azul Gorringe

Uma Missão Científica para Proteger o Gigante da Europa

O Gorringe é a montanha submersa mais alta da Europa, que se ergue a partir das profundezas do Atlântico, encontrando-se a cerca de 200 km ao largo da costa portuguesa. Com mais de 5.000 metros de profundidade e com os picos, Ormonde e Gettysburg, a menos de 30 metros da superfície, o Gorringe é maior do que os Alpes e estende-se por mais de 200 km de comprimento e 80 km de largura e desempenha um papel ecológico crítico no Atlântico Nordeste.

Descoberto em 1875 durante uma missão de cartografia liderada por Henry Gorringe, este gigante é um verdadeiro stepping stone oceânico — uma plataforma de vida que liga ecossistemas entre continentes e ilhas, permitindo que as espécies existam de um lado e de outro desta base.

Formado pela convergência das placas tectónicas Africana e Euroasiática, o Gorringe alberga uma diversidade única de habitats, desde florestas de algas a recifes profundos e jardins de corais de águas frias. Reconhecido pelo seu valor ecológico, integra a Rede Natura 2000 e a área EBSA Madeira-Tore (Ecologically or Biologically Significant Marine Area).

A importância do Gorringe

Hotspot de biodiversidade: acolhe uma comunidade marinha rica e vibrante, incluindo espécies normalmente encontradas em zonas costeiras, bem como espécies raras e vulneráveis.

Plataforma migratória: oferece refúgio e zonas de alimentação para espécies migradoras, desde aves marinhas a mamíferos marinhos, atuando como uma ligação vital entre regiões oceânicas.

Oásis oceânico: a sua produtividade biológica contribui para o equilíbrio ecológico do Atlântico.

Uma expedição pela proteção da montanha

Em setembro de 2024, a Expedição Oceano Azul Gorringe foi a maior missão científica alguma vez realizada naquela região. Liderada pela Fundação Oceano Azul, em parceria com o Oceanário de Lisboa, o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e a Marinha Portuguesa reuniu uma equipa multidisciplinar com mais de 70 participantes, quatro embarcações e tecnologia de ponta.

Durante três semanas, a equipa científica explorou os picos Gettysburg e Ormonde, o vale entre estes picos, as escarpas íngremes que descem até às planícies abissais e o oceano aberto em redor. O objetivo foi consolidar o conhecimento científico sobre a biodiversidade do Monte Gorringe e fundamentar a criação de uma Área Marinha Protegida com proteção total.

Componentes Científicas

A investigação científica dividiu-se em três zonas distintas:

Principais destaques

Ausência preocupante de predadores de topo e espécies comerciais — reflexo do impacto humano mesmo em alto mar.

Presença rara e numerosa de raias-torpedo, ainda pouco estudadas.

Identificação de habitats prioritários para a conservação, como florestas de kelp, jardins de coral, bancos de areia, recifes rochosos e agregações de esponjas de profundidade.

Agregação de Tremelgas (raias-torpedo) fêmeas I © Oceano Azul Foundation _ Jordi Chias

Da ciência à ação

Os resultados da expedição sustentam a proposta de expansão da atual área Natura 2000 (22.928 km²) e a reavaliação dos níveis de proteção, com os seguintes objetivos:

  • Proteger o Gorringe e as planícies abissais circundantes, bem como montes adjacentes prioritários, constituindo uma proposta de ampliação para cerca de 100.000 km²;
  • Elevar o nível de proteção da área para Proteção Total ou Restrita, segundo alinhamento com standards internacionais (IUCN, MPA Guide, Greenlist);
  • Restaurar florestas de kelp e de corais de águas frias;
  • Criar um santuário para raias-torpedo, grandes predadores e espécies migratórias;
  • Salvaguardar áreas de reprodução de tartarugas, atuns e tubarões azuis;
  • Aumentar a riqueza e abundância de espécies observadas;
  • Recuperar funções ecológicas perdidas, reforçando a presença de predadores de topo e espécies comerciais.

O poder da comunicação ao serviço da conservação

A expedição não foi apenas uma missão científica, foi também um projeto de comunicação para aproximar o oceano da sociedade. Como resultado da expedição, foi produzido o documentário “Gorringe, o Gigante do Atlântico“, uma obra cinematográfica que dá a conhecer a vida extraordinária do Monte Submarino Gorringe e a jornada da equipa científica para o explorar.

Através de imagens inéditas, o documentário revela a beleza e fragilidade de um dos ecossistemas mais valiosos e desconhecidos da Europa. É uma ferramenta poderosa para sensibilizar o público e mobilizar vontades políticas para a conservação do oceano.

Brevemente…

© Oceano Azul Foundation _ Jordi Chias

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